Superação

Árvore da vida: utilizando cinzas para o plantio de uma nova vida

As formas de sepultamento têm sido cada vez mais discutidas entre a sociedade brasileira. A chegada da cremação trouxe um conceito mais atual e inovador e é por isso que tem se tornado uma das opções mais escolhidas no país. Assim como os principais estados brasileiros, o Rio Grande do Norte segue essa tendência e a procura tem sido mais frequente entre os potiguares.

No cemitério Morada da Paz, em Natal, o único do Estado a oferecer crematório, a procura pelo serviço tem sido crescente. No ano em que foi inaugurado, 2013, o crematório alcançava a média de 8 cremações mês. Já em 2015, esse número foi para 11 cremações mês, um expressivo crescimento de 47%.

Em recente pesquisa realizada pela Consult na capital potiguar, a pedido do Grupo Vila, foi observado que, por se tratar de um serviço novo, ainda é grande o universo de pessoas que desconhecem a realização da cremação em Natal. Dos 600 entrevistados no levantamento, 52,8% disseram desconhecer a existência de um crematório na cidade. Informados da realização do serviço na capital potiguar, 44,2% afirmaram ser a favor da cremação e apenas 18% se posicionaram contra, o que mostra que o Estado deve seguir a tendência nacional de crescimento do serviço.

Dentre os diferenciais, a cremação é considerada uma prática mais higiênica e, por isso, melhor para o meio ambiente. O processo impede a formação do necrochorume, líquido proveniente da decomposição do corpo humano, comumente visto nos sepultamentos tradicionais. Como 70% do corpo humano é formado por água, as cinzas resultantes do processo de cremação são compostas basicamente de cálcio e potássio, e não causam nenhum mal ao solo. Além disso, o serviço oferece a possibilidade de a família optar por guardar as cinzas do ente querido ou deixá-las em algum local onde a pessoa gostaria de descansar, tornando a partida um ato menos doloroso.

Tantos diferenciais tem tornado a cremação uma das alternativas mais aceitas para o pós morte em todo o mundo. No Brasil, por exemplo, até a década de 1990 só existia um crematório, situado no estado de São Paulo. Hoje, são cerca de 50 crematórios espalhados por todas as regiões do país, dentre eles o Crematório Morada da Paz, em Natal. Nos países mais desenvolvidos a cremação é ainda mais aceita pela população. Nos Estados Unidos a preferência por essa opção chega a 41%. Na Europa, em países como Suíça e Inglaterra, esse percentual sobe para 80%. E é no Japão onde se registra o maior índice de cremações: 99%.

Nem todas as famílias querem se desfazer das cinzas após a cremação de alguém que sempre esteve tão próximo. Alguns optam por jogar ao mar ou em algum local que o falecido tenha solicitado, outros preferem guardar as cinzas em ossuários ou até mesmo em casa, em variadas urnas. Pensando nesse público, o Morada da Paz, que possui dois crematórios um localizado em Recife e outro em Natal,  oferece um novo serviço chamado Árvore da Vida. Trata-se da utilização das cinzas para o plantio de uma muda de árvore dentro do terreno do Morada. Tal qual acontece com os jazigos, cada muda recebe uma placa de identificação, mostrando o nome do falecido.

A bióloga Rejane Mansur foi uma das que optaram pela Árvore da Vida. Ela destaca a importância do serviço como um todo, o uso de urnas ecológicas biodegradáveis até a participação das cinzas no ciclo nutricional da árvore. “É um projeto lindo e encantador, é uma maneira real de dar continuidade à vida, pois as cinzas são absorvidas pelas raízes, ajudando a muda a se desenvolver. Além de saber que não estarei poluindo o solo”, afirma.

De acordo com a psicóloga do luto, Mariana Simonetti, “Enquanto ser vivo, que passa pelo ciclo vital, a árvore muitas vezes dá a ideia de vida. E, por vezes, de uma vida que podemos ajudar a fazer crescer, a florescer”, explica Mariana. No Brasil, a Árvore da Vida dá nome a um produto que tem conquistado muitos adeptos. Por meio dele, é possível utilizar as cinzas pós-cremação para o plantio de uma muda de árvore.

“A Árvore da Vida seria uma forma simbólica de mostrar que aquele ente querido ‘não acabou’. Que apesar de ele ter morrido e de não sabermos ao certo o que aconteceu com ele no pós-morte – apesar de algumas religiões falarem um pouco sobre essas crenças –, de alguma forma ‘algo dele’ continua vivo ali, de forma concreta”, explica Mariana. Para a psicóloga, o concreto dá ao ser humano a ideia de algo ser mais real, visto que as pessoas fogem do total desconhecido. “Pode-se pensar que a Árvore da Vida seria uma forma de deixar sua marca por aqui”, completa.

“A partir do momento em que um pouco da vida do ente querido está naquela árvore, as pessoas podem simbolicamente considerar aquela árvore, que as cinzas do seu ente querido ajudou a nutrir, como sendo um ‘pedaço’ dessa pessoa que ficou vivo”, diz Mariana. “O sofrimento que, por vezes, vem junto com a saudade da perda pode até ser ressignificado quando a pessoa vê a árvore ou ainda quando tem a oportunidade da cuidar dela e fazê-la crescer”, completa a profissional.

“É um projeto lindo e encantador. Uma maneira real de dar continuidade à vida, pois as cinzas são absorvidas pelas raízes, ajudando a muda a se desenvolver”, avalia a bióloga Rejane Mansur, que optou pela Árvore da Vida do Morada da Paz. “A partir desse símbolo, a pessoa pode acreditar que ainda pode cuidar do ente querido que se foi”, conclui a Psicóloga do Luto Mariana Simonetti.

Dona Doralice Myers foi a primeira a utilizar o serviço oferecido pelo  Morada da Paz de Recife. As cinzas do seu marido, o americano Joseph R. Myers, tiveram dois destinos: “uma parte foi levada pelos filhos para os EUA e com a outra metade foi realizada o plantio de uma muda”, detalha Doralice.

Juliana Fernandes, gerente de marketing do Grupo Vila, explica que a família pode depositar no seu terreno quantas cinzas ela quiser, transformando o local em uma espécie de árvore familiar, que pode ser nutrida pelas cinzas dos demais membros. A família pode escolher entre as seguintes espécies: pau-brasil e ipê-roxo, amarelo e rosa.

PROCESSO – Após a cremação, a família deposita as cinzas numa urna biodegradável, própria para receber uma muda, adubo e terra e em seguida, é feito o plantio. O cemitério realiza toda a manutenção para que a árvore possa crescer de maneira saudável.

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